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Entrevista com as Girls of War



Você já deve ter ouvido falar do blog Girls of War. Caso não tenha, já passou da hora de ler a opinião das especialistas em games do portal feminino, que é formado por Carla Rodrigues, que também é nossa companheira aqui no GameTV, Bruna Torres, Vivi Werneck, Clarice Santos e Rebeca Gliosci. O blog das garotas é um misto de entrevistas com a galera da indústria (de Ken Levine ao Yoshinori Ono, passando pela equipe de desenvolvimento de AC: Brotherhood) e opiniões pessoais despretensiosas, no maior estilão "de gamer para gamer". As moças vieram para São Paulo para palestrar na Campus Party e aproveitaram para ceder uma entrevista aqui para o site, dando pitacos sobre pirataria, Jogo Justo, jornalismo gamer no Brasil e muito mais.

As Girls of War também explicaram como o site começou. A iniciativa veio da Carla Rodrigues, que tinha um blog de games e escrevia para a revista EGW (atual EGM), onde a Bruna Torres também era jornalista. A ideia surgiu graças à falta de blogs de games femininos aqui no Brasil; sendo que os que já existiam não eram formados por grupos (como o MeninaQueJoga). Nesses 3 anos em que o Girls of War ficou na ativa, a equipe também garante: "é preciso atualizar constantemente, com conteúdo de qualidade".

GameTV: Puxando o tema, aproveitei para começar a entrevista pedindo a opinião das Girls of War sobre o atual jornalismo de games no Brasil. Falta opinião por aqui? O nível das revistas e sites nacionais está a par do que nós vemos lá fora?

Carla Rodrigues: Acredito que esteja amadurecendo. Antigamente, o formato era mais engessado, tinha um molde para escrever a análise. Hoje você vê que tem mais liberdade para escrever um texto mais solto, mostrando a personalidade do redator, até por que as empresas estão investindo nisso. A gente já viu que por mais que a gente expresse a nossa opinião, vai continuar vindo investimento.

Rebeca: O que eu acho que falta um pouco, mas que está começando a acontecer aqui, é o que ocorre em muitos sites dos Estados Unidos e da Europa mais voltados à crítica dos games. Lá tem muitos profissionais focados em analisar criticamente aspectos sociais, culturais, ideológicos, etc que envolvem os jogos.

GameTV: Esse lance de expressar sua própria opinião em uma análise funciona na prática, ou os jornalistas daqui ainda preferem seguir um padrão na hora de falar sobre jogos?

Rebeca: Não, existem muitos jornalistas bons por aqui, pelo menos os que eu leio acho ótimos. Tem muito jornalista bom que está se voltando para o lado de fazer críticas menos presas a fórmulas. E uma coisa que acho desnecessária é o negócio de dar nota no final. Vejo que isso está mudando. Antigamente os games eram destrinchados como produto, tinha nota para jogabilidade, gráficos...e aí a nota final.

Carla Rodrigues: Tinha até nota para replay...odiava dar nota para replay.

Bruna Torres: Uma vez, eu tive que dar nota para Disney Friends. E, né? Eu adoro esse tipo de jogo! (risos). Tive que pensar que o jogo era para criança, dando uma nota baseada nisso. Não acho que o jogo merecia a nota que dei, mas precisava seguir o padrão da revista. Eu acho que eu dei 8 ou 7, mas só para crianças.

GameTV: Já que o assunto caiu no Brasil, nada melhor do que pedir a opinião de gamers na ativa sobre as campanhas que prometem preços mais acessíveis, que andam tão em alta e cresceram tão rápido. Claro, o maior exemplo é a campanha do Jogo Justo, criada por Moacyr Alves com a intenção de baixar a carga tributária dos games no Brasil. Nesse ponto, as meninas lembram que muitos dos títulos que chegaram por aqui com preço menor não foram responsabilidade dos movimentos. Um exemplo é Rayman Origins, que chegou aqui por R$ 99, contra os infames R$ 199, preço comum dos lançamentos, mas partiu de uma estratégia da própria Ubisoft.

Carla Rodrigues: O Jogo Justo está se esforçando para tentar mudar alguma coisa, mas falta mostrar resultado. Há mais de um ano que nós temos o Jogo Justo e não tenho certeza se realmente mudou algo. De qualquer maneira, está chamando mais atenção para os problemas.

Clarice: Realmente, a gente ainda não viu resultado. Eles falam que propostas já foram aprovadas na câmara e tudo, mas cadê? Ainda não caiu o preço de nada.

Rebeca: Já estava acontecendo essa conversa de queda de preços no mercado brasileiro. Não foi o Jogo Justo ou outros sozinhos que fizeram este processo acontecer, eles só entraram com um timing bom. Sou a favor dessas iniciativas, tudo que servir para melhorar nosso mercado é excelente, as pessoas só não podem cair de cabeça na proposta, sem analisar os resultados.



GameTV: Tem muita gente no Brasil que ainda acha que videogame é artigo de luxo, ao ver preços tão exorbitantes. Os pais, principalmente, incentivam a pirataria sem saber a diferença entre comprar um jogo ilegal de 5 reais ou um original de 129, sem entender como isso afeta a indústria. Falta educação?

Rebeca: Uma coisa importante que movimentos como o Jogo Justo poderiam fazer é ajudar a educar o público brasileiro sobre o mercado. Não basta falar que "Os impostos são injustos! Vamos mudar o Brasil!".Tem uma questão político-econômica mais complicada por trás. As coisas podiam ser mais claras pela parte deles.

Carla Rodrigues: Ainda existem muitas pessoas que compram pirata por falta de educação, existem as que começaram a reclamar e querer algo a mais, apoiando os movimentos, mesmo que eles ainda não mostrem muito resultado. As pessoas cansaram de pagar preços absurdos.

Rebeca: A vantagem é que a vontade do público já existe. Só falta as propostas terem mais pé no chão. Por exemplo, primeiro o Jogo Justo chegou com a expectativa de jogos a R$ 99. Depois, no fórum da Acigames, o discurso mudou dizendo que R$ 99 é um pouco irreal para o nosso mercado, que algo em torno de R$ 149 talvez seja mais viável. Assim é uma conversa mais realista.

GameTV: Como alternativa aos preços altos a gente tem o Steam, Direct2Drive e outras plataformas de distribuição digital, dando até para listar algumas empresas nacionais, como o Nuuvem e o Xogo.

Bruna Torres: Sempre uso o Steam, é bem mais barato e eu não tenho a necessidade de ter a caixinha do jogo.

Carla Rodrigues: Acho que os jogadores brasileiros não estão acostumados a jogar no pc. A maioria dos nossos leitores ainda estão no PS3, Xbox 360, até PS2. Como muito deles ainda usam jogo pirata, para quê eles vão pagar R$ 80 em uma coisa que pode custar R$ 5? Mesmo sendo um preço ótimo falta educação, não adianta nada.

Rebeca: Instaurar uma cultura de jogos por download no Brasil é difícil, a internet aqui não é aquela maravilha, primeiro é necessário ver esses aspectos técnicos.


GameTV: Tirando o elefante da sala, é preciso perguntar se, por vocês serem meninas, vocês já tiveram algum problema com haters, fanboys e stalkers, seja uma situação engraçada ou apenas encheção de saco.

Carla Rodrigues: Acredito que nesse ponto nós tivemos muita sorte. Nunca houve um caso grave de preconceito, de ter haters por sermos meninas. Claro que trolls sempre existem, sempre tem um engraçadinho que nos comentários solta algo tipo "Ah, mas vocês são meninas! Vão para cozinha!". Agora, de falar com preconceito de verdade, foram raríssimas vezes.

Bruna Torres: É, nesse tempo todo em que joguei, só uma vez um cara veio falar que eu não sabia jogar por ser menina. Acabou que ele perdeu várias vezes para mim e hoje é meu colega de jogo. No começo ele ficou ofendido, falando "Nossa, como assim, tô perdendo para essa guria?". Ele me xingou várias vezes, a gente brigou feio. Hoje em dia ele é meu amigo, ele viu que eu sei jogar mesmo.

Carla Rodrigues: Quando eu jogo Gears e os caras percebem que tem uma menina jogando e tal, eles vão para o meu lado do mapa, para me defender. Eles ainda ficam falando coisas tipo "Cuidado, Carlinha, alguns Locusts estão vindo à sua direita!", "Olha lá, eu matei! Te salvei!", "Não vem para cá, tô segurando a onda sozinho!".



GameTV: Pelo visto, as meninas não sofreram muito nas mãos dos famosos trolls da internet, mas será que as outras meninas acabam pegando muito no pé?

Carla Rodrigues: A maioria das meninas que adicionam a gente, admiram muito nosso trabalho. Elas sempre elogiam, falam que se identificam e que jogam bastante.

Rebeca: Tem muita gente que diz que blog de menina só chama atenção por ser feito por garotas. Isso não tem nada a ver, é até preconceituoso. Se um blog não tiver conteúdo, você não segura o leitor.

Carla Rodrigues: E no Girls of War a gente tem a nossa regra número um. A gente não escreve nenhum texto da perspectiva feminina, a gente fala como se fosse de jogador para jogador. Tanto que se você entrar lá, vai ter uma linguagem mais feminina mesmo, afinal, nós somos meninas, mas não tem nenhum comentário sobre machismo, feminismo ou nessa linha de assunto a não ser que se faça necessário.

GameTV: O machismo no Girls of War não existe. Mas será que a sexualidade exarcebada de alguns personagens dos games (impossível não lembrar de mulheres como Ivy, de SoulCalibur) acaba incomodando na hora das jogatinas?

Rebeca: Muita gente se surpreende ao ver que nós não falamos sobre machismo nos videogames. Não negamos que haja machismo, mas isso existe em todos os meios. Não gosto de classificar o meio gamer como essencialmente machista. As "gostosonas" geralmente estão inseridas em universos em que todo o resto é exagerado, onde não faria sentido ter personagens realistas.

Carla Rodrigues: Isso vai muito do gênero do jogo, também. A Lara Croft põe uma regata e um shorts, ela não precisa se expor tanto. A Faith, de Mirror's Edge, segue a mesma linha. São caracterizações diferentes.

Rebeca: Pois é, se a gente parar para pensar, existem inúmeras personagens nos games que são boas representações das mulheres, mas acabam focando nas "gostosonas", né? Existem muitos bons exemplos como as mulheres de Metal Gear, de Final Fantasy e RPGs em geral... Já que tem os dois lados, isso realmente não me incomoda.


GameTV: E, para fechar com chave de ouro, as meninas lembram quais foram os títulos que marcaram 2011.

Clarice: Assassin's Creed: Revelations, de longe. Acredito que o jogo irá para os Estados Unidos, já que a história abriu uma brecha para o passado de Desmond.

Carla Rodrigues: Portal 2, Gears of War 3 e Marvel vs. Capcom 3. Foram os que eu mais joguei ano passado.

Rebeca: Deus Ex: Human Revolution. Nunca havia jogado, mas adoro ficção científica, ainda mais o sub-gênero Cyberpunk. Outro preferido foi Portal 2, sou apaixonada pelo primeiro jogo e achei o segundo fantástico. O terceiro preferido foi Shadows of the Damned, que brinca com o clichê de salvar a princesa e com o gênero de horror.

Bruna: Não tenho como falar qual foi meu preferido de 2011, já que fiquei um bom tempo sem jogar por conta do meu computador, que quebrou. O que mais me chamou atenção foi o Battlefield 3, por ser mais fã de FPS.

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